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Palavra do dia: ‘tilt’ 

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 107


Por pouco não consigo enviar este e-mail a tempo, se não fosse minha persistência para encarar a fila da lan house por tempo suficiente para fazer meu cabelo crescer uns dois centímetros.

O rapaz ao meu lado, com uma senha alguns números maior do que a minha (espiei com o canto do olho) e alguns anos mais novo que eu (pelo menos uns dez, calculei), balançava as pernas inquieto, com os dedos espremidos entre as coxas, como se temesse que eles escapulissem. Eu poderia ter sentido alguma empatia, já que estávamos no mesmo barco? Sim, poderia. Mas naquele momento só me ocorreu o típico pensamento babaca de gente da minha idade: esperar por internet é para os fortes.

Desculpe então o tom de nostalgia que anexo a este e-mail, mas essas cenas, que tenho presenciado com alguma frequência, arremessam minha memória de volta para o tempo dos memes, da zoeira sem limites e da fartura de internet de onde esses jovens vieram. Lembra, <<Primeiro Nome>>, de quando assistíamos uns cinquenta vídeos por dia, e nos irritávamos com cinco segundos de propaganda antes do conteúdo que queríamos de fato ver? Ou quando algumas horas de uma rede social fora do ar era o suficiente para fazer as pessoas entrarem em modo sobrevivência-no-apocalipse? 

Aposto que os mais jovens se lembram, porque nasceram nesta época, afinal. Mas também me lembro de uma outra época, em que era preciso esperar horas para carregar um vídeo, longos minutos para fazer o download de um gif, e ficar acordado até mais tarde para conectar só depois da meia-noite. Por isso a vantagem da minha geração nos tempos atuais: crescemos tendo que lidar com a espera. E paciência ajuda em momentos como esse, em que as lan houses das operadoras de internet estão tão cheias quanto um pronto-socorro – com a diferença que ali o alívio que se busca não é da dor, mas da pulsante necessidade por um pouquinho de conexão.

Parece que foi em outra vida que não precisávamos sair de casa para ler um e-mail, né? Mas as cotas mensais de acesso a internet foram encolhendo tanto e tão rápido, que esse negócio de ter internet em casa deixou de fazer sentido, pelo menos para quem não dispõe da fortuna de um sultanato para continuar a navegar sem precisar sair de casa. Por incrível que pareça, antes as operadoras iam até você; hoje nós é que precisamos ir até elas. 

Nada disso faz muito tempo, na verdade, mas os tempos mudam rápido e pessoas são maquininhas de adaptação que se acostumam logo. Só não vou me acostumar com esse café com gosto de açúcar e pano de prato que servem nesses lugares que, não bastasse a internet cara, tentam te jogar na cara mais um monte de porcaria para você consumir e ficar ali o máximo de tempo possível. Você já deve ter saído de alguma lan house com sacolas cheias de snacks que você não queria comer e de souvenirs como bonequinhos infláveis que você não sabe como chegou a comprar, mas quem nunca?

Não percebemos mais como dificuldade essa limitação no acesso a um recurso que um dia foi tão abundante que era como se brotasse do ar. Doideira é imaginar como conseguíamos viver passando o dia inteiro conectados, ou como coisas completamente intangíveis como “curtidas” valiam dinheiro; uma época em que era profissão ficar falando sobre a própria vida na frente de uma câmera, e que a maior punição que alguém poderia receber era se transformar em um meme que durasse dias; podíamos escolher os filmes que quiséssemos sem precisar ir buscá-los numa locadora, como fazemos hoje; mandávamos mensagens de áudio sem usar o sinal de rádio; e esbanjávamos tanto a internet que usávamos para comentar o que passava na TV. Foram tempos bem loucos.



Mas vem cá, sério que teve um dia que a gente achou que isso duraria para sempre?

O progresso era visto como algo linear, que só iria evoluir e aumentar exponencialmente, como a capacidade de processamento dos nossos celulares, que crescia na mesma medida que o tempo que eles precisavam ficar carregando numa tomada depois. Mas aquela historinha bíblica do sonho do faraó, que me deixava boladíssima quando eu era criança, já nos mostrava que as coisas não são bem assim. Sete vacas gordas eram seguidas por sete vacas magras, porque a vida é esse troço cíclico e a gente não costuma pensar em escassez enquanto vivemos tempos de fartura.

(os próprios celulares já estavam dando a dica: primeiro o lance era ter um celular. E isso significava ter um celular grande como um tijolo. Aí os celulares foram diminuindo e ficando fininhos. Depois o lance foi ter um celular grande de novo. A próxima tendência, especialistas preveem, é voltar a não ter celular at all).

Se um dia caminhamos para dias de glória do mundo online, hoje o que vemos é o caminho inverso, onde a internet murcha e mingua enquanto arrumamos outras formas de viver sem ela, porque o preço do litro da conexão não está para brincadeira. Então não é como se existisse tal coisa como “fim do mundo”. O mundo não acabou, está apenas rebobinando. Exatamente o que está acontecendo com a internet.

Sim, a vida seguiu, ao contrário das previsões alarmistas que fizeram na época em que o acesso começou a ser restringido. Certo, a vida seguiu de volta para os anos 90, mas há pontos positivos aí. Até voltou a passar Blossom na TV, logo após a reprise dos episódios do extinto canal da Jout Jout. Calculo que daqui a uns vinte anos não saberemos distinguir uma da outra.

Foi uma época em que produzimos tanta coisa que, mesmo se a internet acabasse de vez, teríamos conteúdo para ficar assistindo offline por mais de uma década. Faz sentido, não? Foi o que o faraó fez na história contada na Bíblia: estocar alimento durante os tempos de fartura para sobreviver aos tempos de escassez. Tudo bem que a quantidade insana de conteúdo que estávamos criando naquela época foi feita mais por compulsão do que pensando em deixar coisas de qualidade para o futuro, mas pelo menos teremos muitos prints de Whatsapp, montagens com Dollynho e vídeos de Minecraft para nos prover pelos próximos anos.

Uma coisa que sinto saudade daquela época era usar a internet para procrastinar. Fazia parte do tempo de trabalho ficar olhando imagens divertidas, assistindo vídeos e rolando infinitamente a timeline do Twitter (que já foi um site para posts com até 140 caracteres e que hoje você deve conhecer como aquele serviço de SMS que te manda piadas de hora em hora). Tem maior prova de ostentação do que essa? É como se, sei lá, deixássemos a torneira aberta por horas só para ficar olhando a água escorrer, indiferentes ao custo daquilo. E pensar que hoje preciso me preparar todinha antes de chegar na lan house, já com todos os textos prontos e com uma trajetória na cabeça com os sites que vou visitar, que é para não perder preciosos minutos de conexão.

Também gosto de usar o tempo do download de vídeos & artigos que vou ver depois em casa para ir respondendo e-mails. Já me disseram que sou muito obsoleta por insistir no e-mail, que eu deveria fazer tudo por carta, que é muito mais barato e tem muito mais intimidade, que quase ninguém mais usa e-mail, que eu estou perdendo meu tempo, etc. O e-mail sempre foi a rede social mais subestimada. Na época da internet ilimitada ele já não fazia sucesso, agora também não. Nunca chegou a vez do e-mail e, pelo visto, nunca vai chegar. Mas o que posso fazer? Sou resistência – ou, pelo menos, é como gosto de me imaginar.

Sempre que mergulhamos em alguma coisa com essa intensidade, perdemos a dimensão real de sua finitude iminente. Agimos como se ela nunca fosse acabar, como se o futuro nos reservasse mais e mais daquilo. Imagina, sempre haverá faraós! É claro que o latim continuará a ser falado no futuro. Império Asteca deixar de existir? Nunca! Um mundo sem Google? Jamais. Mas, seguindo a tendência das coisas que criamos surgirem, se tornarem grandiosas ou estúpidas e depois morrerem, apenas nos mostra que isso não só é possível como esperado.

Não é motivo para choro e ranger de dentes, no entanto. Primeiro, porque a gente sempre se acostuma. No momento da mudança, piramos e arrancamos os cabelos de desespero, mas depois a gente segue como se sempre tivesse sido assim. É o que a espécie humana faz de melhor, logo atrás de pamonha e brigadeiro. Em segundo lugar, porque se as coisas estão acabando para o mundo poder rebobinar, no futuro teremos de volta uma nova onda egípcia, com adoração total aos gatos, rainhas negras dominando o mundo, livros escritos só com figuras e aqueles figurinos babadérrimos que não vejo a hora de desfilar por aí.

Poderia continuar imaginando cenários futuros, mas sabe como é: já está acabando meu tempo na lan house e tô sem grana para internet extra esse mês. Além do mais, não quero me prolongar em um texto gigantesco que vai custar mais caro para você ler até o final. Então aproveite o resto do seu tempo de conexão com o que realmente vai fazer seu dinheiro valer na internet: tirar prints das bobagens que deixaram para trás. E vídeos de gatinhos. Sempre.

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Não se desespere

As operadoras e a Anatel já começaram a mandar a real: a era da internet ilimitada está chegando ao fim. Quem mandou a gente ficar gastando com bobagem?

Mas pode deixar o desespero de lado, porque com trocas simples podemos nos acostumar aos novos velhos tempos. Por exemplo, você pode substituir o ato de trocar curtidas nas redes sociais por trocar papel de carta. Ou playlists no Spotify por mixtapes gravadas em fitas cassete.

momento Bela Gil

Você também pode trocar indireta no twitter por fofoca com as vizinhas. Ou passar o dia em redes sociais por passar o dia se balançando numa rede, que é muito mais vantagem.

Você pode trocar memes por piadas do pavê, que quase não vai dar para sentir a diferença. Também pode trocar textão no Facebook por um querido diário. Ou ainda trocar enquetes no Twitter por um caderno de perguntas.

Você pode substituir mensagem no Whatsapp por um sofisticadíssimo telegrama. O legal é que também vai dar para substituir não saber usar e-mail por continuar não mandando cartinhas.

Você pode substituir gifs animados por animações feitas em bloquinho de papel. Jogos online por RPG de mesa. Wikipedia por Barsa. “Manda nudes” por “me desenhe como uma de suas garotas francesas”. Tretas no Facebook por discussões numa ágora como faziam os gregos. Netflix por contar histórias ao redor de uma fogueira. Bloquear quem você não gosta por meter uma machadada na cabeça de quem te aborrecer.



Então não se preocupe; se no futuro não houver mais internet, sobreviveremos a ele. Afinal, se sobrevivemos aos anos 90, podemos superar qualquer coisa.

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Últimos textos

:: Lá no blog, você descobre por que gosto das pessoas como gosto do meu café.

:: Na Carta Capital, relembro o filme Mais estranho que a ficção para falar por que protagonismo não é uma questão de status, e sim uma difícil tarefa.

:: Depois do freak show que foi a votação pelo impeachment na Câmara, fiquei tão desgraçada das ideias que escrevi este texto: O absurdo já não nos impressiona. Trechinho:

Pelo fim da infestação de insetos!", gritam energicamente as baratas reunidas, roçando as antenas com as patinhas peludas.



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“Deixamos uma parte de nós para trás quando partimos de um lugar. Continuamos lá, apesar de termos ido embora. E há coisas em nós que só podemos reencontrar quando voltamos. Viajamos para nós mesmos quando visitamos esse lugar."

Do filme Trem Noturno para Lisboa, vale a pena assistir.

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Para gastar sua internet


:: Como trilha sonora do dia, escolhi este clipe do Tame Impala, Feels like we only go backwards.
 
O título remete a esta sensação de que parece que só retrocedemos – e até onde tudo indica, é verdade. Abra o vídeo em tela cheia, fixe o olhar no centro dele e saboreie a deliciosa sensação de estar entrando num túnel do tempo, onde tudo é muito, muito colorido.



:: Este vídeo (em inglês) contando, em 9 minutos, e de um jeito maravilhosamente doido, toda a história do Japão.

Interessante para observar como as coisas mudam, governos caem, tecnologias surgem, pessoas se juntam e depois se separam, plantam arroz e depois fabricam tevês. Tudo isso colocado na velocidade certa nos faz perceber que nosso mundo está bem longe de ser imutável.



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No último dia da internet, quando restarem uns poucos gatos pingados online, eles estarão firmes na tarefa de transformar em meme seja lá que assunto as pessoas do futuro acharem importante.

(o preço do teletransporte, uma nova epidemia que transforma as pessoas em peixes, a última declaração bombástica do cineasta conhecido por usar câmeras colocadas dentro de bolhas de sabão para gravar suas cenas, etc)

A essa altura, grande parte da informação do que já foi um dia a famosa rede mundial de computadores estará desativada e inacessível, opaca no horizonte internético, como se devorado pelo Nada da História sem Fim.

Os avatares que restarem serão as últimas testemunhas dos feixes luminosos de bytes que um dia alicerçaram um grandioso império. Em algum lugar, alguém se ocupará de desconectar os últimos cabos, e eles apenas esperarão, cada um num canto do mundo, com a ansiedade de mil reveillóns.

No momento em que a única página restante em toda a internet for um post citando a notícia de Caetano Veloso estacionando no Leblon, do remoto ano de 2011, o internauta que lá cair para o momento derradeiro deixará uma mensagem final carregada com todo o poder de seu sentimento: um emoji de soquinho e outro de mãozinhas juntas, que ninguém nunca entendeu o que raios significa e que também deixará os últimos internautas confusos, sem saber exatamente o que responder.

E repentinamente ficarão offline, só depois percebendo que desperdiçaram um ótimo momento para bolar um epitáfio que desse uma boa hashtag final. Tarde demais. Descanse em paz, internet.

Beijos ilimitados,


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