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Palavra do dia: ' espotricar' 

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 109


Que ninguém nasce pronto isso é algo que todo mundo mais ou menos concorda. Vamos nos construindo com o tempo, buscando pelo caminho os tijolinhos que vão nos formar. Ninguém nasce pronto, ok; mas também ninguém se constrói sozinho.

Por isso hoje eu queria começar essa nossa conversa assim: lembrando que antes de você, veio outra pessoa. E o que ela fez foi importante (se não fundamental) para você ser a pessoa que é hoje, e fazer as coisas que faz.

Isso para mim, que trabalho com criatividade, fica evidente e fácil de reconhecer. O insumo da criatividade está no mundo ao meu redor, nos livros que leio, nas músicas que ouço, nos seriados que assisto, nas histórias que ouço algum parente contar.

Ideias não brotam do nada. Se elas surgem, é porque quem as criou se alimentou de boas referências, de bagagem cultural, de experiências. A matéria de que são feitas as ideias tem que ser extraídas de algum lugar.

Como na edição em que falei sobre processo criativo, esse insumo para a criatividade pode ser transformado de diferentes formas, dependendo da intensidade que você bate os ingredientes dentro do seu Liquidificador da Arte (um conceito maravilhoso que aprendi com Amanda Palmer, uma importante referência pra mim).

ilustração: Tracy Cai

As referências que te constróem podem se refletir de maneira muito clara no seu trabalho, porque você escolheu dar uma batidinha de leve no Liquidificador da Arte, ou podem estar irreconhecíveis, picadas em pedacinhos minúsculos e misturada a tantas outras coisas, porque você resolveu bater até ficar uma massa bem homogênea.

Mas as referências não se limitam ao campo criativo. Aquela pessoa que te ensinou a fazer umas planilhas daora? Foi uma referência. Também aquela outra, super estilosa, que sem querer te mostrou que você podia aceitar o seu cabelo como ele é e usá-lo solto, volumoso, orgulhoso. Ou aquela outra que consegue debater sendo gentil, que te mostrou que era possível não sair por aí agredindo os outros.

Pode ser uma pessoa que te mostrou como falar bem, ou aquela com quem você aprendeu a fazer o arroz do jeito que você gosta. Pode ser alguém que criou uma obra fantástica ou alguém que apenas viveu a vida de um jeito que te inspirou.

Já pensou que se não fossem elas, talvez você seria diferente?

É provável, quase certo, que você leria textos muitos diferentes nesta newsletter se eu não tivesse lido os autores que li. Ou se eu tivesse morado no exterior, em vez de passado a vida praticamente inteira no centro-oeste. Ou se não tivesse conhecido as newsletters do Alex Castro e da Olivia Maia (talvez eu nem tivesse uma newsletter). Ou se eu tivesse lido mais clássicos da literatura em vez de quadrinhos. Ou se eu tivesse feito outro curso na faculdade, e não tivesse conhecido uma professora de Redação que me ensinou tantas coisas que eu pude até escolher com o que eu não concordava e a que lições eu me agarraria e levaria para a vida.

Eu não penso “se” eu fizesse isso em vez daquilo eu estaria numa condição melhor ou seria uma pessoa mais realizada; como eu já disse numa outra ocasião, o “se” é algo que prefiro deixar para a ficção.

Mas pensar que teria sido diferente se eu tivesse tido outras referências, me faz prestar atenção no que de fato sou, no agora, e identificar cada pecinha que compõe este imenso Lego que eu sou hoje. E, sabe, isso só me faz ficar imensamente agradecida por quem veio antes de mim e fez essas pecinhas.

ilustração: Carolina Buzio

Somos primatas que aprendem por imitação. Vemos uma pessoa fazendo algo bem e observamos seu movimento, a ordem que ela faz as coisas, o jeito que mistura os ingredientes ou que organiza as palavras; seguimos mentalmente cada passo na tentativa de aprender.

É por esse motivo que é um perigo fazer e falar certas coisas na frente de crianças. Porque nós somos essas criaturinhas que funcionam como esponjas, às vezes absorvendo até (e principalmente) o que não presta.

Portanto agradecer a quem veio antes e a quem me cerca que me servem como tão boas referências é algo que eu poderia fazer mais. Com tanta gente jogando bosta para todos os lados, é um alívio e imenso privilégio poder encontrar pessoas cuja vida e trabalho conseguem me servir de inspiração.

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Uma proposta

Escreva uma cartinha, ou um e-mail, ou uma mensagem (ou até um post-it, quem sabe) a quem te inspira e serve de referência (como podem ser muitas pessoas, escolha pelo menos uma ou duas).

Aposto que, em muitos casos, essa pessoa nem sabe e vai ficar felizona de descobrir que algo que ela fez, falou ou escreveu serviu de referência para você.

Nem precisa ser algo muito longo, elaborado ou complicado (muito menos algo público – o importante é ser para a pessoa que te inspira). Apenas agradeça.

Pode ser algo tipo “oi, só queria dizer que os seus quadrinhos já me deram muitas ideias e te agradeço por isso, só isso mesmo, beijos”. Só para que a outra pessoa saiba. O quanto a gente não deixa as pessoas saberem o que fizeram de bom?

Se quiser, depois você pode me contar como foi. Vou adorar ouvir as histórias.

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Filhos da época

Foi na newsletter da Mulheres que Escrevem (assine, é sempre muito boa) que li o seguinte poema de Wislawa Szymborska, escritora polaca ganhadora do Nobel de Literatura em 1996.

Nesses tempos em que o poder começa de novo a se concentrar nas mãos de quem sempre o teve, peço para que o leia, em voz alta, se possível. Leia em voz alta especialmente para ouvir essas palavras, para lembrar que somos filhos dessa época e, apesar dos pesares, é essa a época que temos para lutar:

"Somos filhos da época
e a época é política.

Todas as tuas, nossas, vossas coisas
diurnas e noturnas,
são coisas políticas.

Querendo ou não querendo,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um aspecto político.

O que você diz tem ressonância,
o que silencia tem um eco
de um jeito ou de outro político.

Até caminhando e cantando a canção
você dá passos políticos
sobre um solo político.

Versos apolíticos também são políticos,
e no alto a lua ilumina
com um brilho já pouco lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.

Qual a questão, me dirão.
Uma questão política.

Não precisa nem mesmo ser gente
para ter significado político.
Basta ser petróleo bruto,
ração concentrada ou matéria reciclável.
Ou mesa de conferência cuja forma
se discutia por meses a fio:
deve-se arbitrar sobre a vida e a morte
numa mesa redonda ou quadrada.

Enquanto isso matavam-se os homens,
morriam os animais,
ardiam as casas,
ficavam ermos os campos,
como em épocas passadas
e menos políticas."

 

Wislawa Szymborsk

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A história vai se lembrar

Vou me lembrar dos risos e fogos enquanto as coisas ruíam. O riso de quem só queria estar certo, não importando quão feio tivesse que ser o rasgo, ou quanta lambança precisasse ser feita apenas para que pudesse dizer “chupa” ou “bem feito” para o outro lado.

Vou me lembrar da TV criando seu próprio roteiro e das pessoas acreditando nele; como se fosse novela, como se fosse jogo de futebol. Vou me lembrar das panelas batendo para calar uma presidente, as mesmas panelas que calaram quando eram adolescentes apanhando da polícia, ou a periferia sendo massacrada, ou a merenda sendo roubada.

Vou me lembrar de quem pediu pelos militares, vou me lembrar de quem aplaudiu torturador, vou me lembrar dos rostos de quem agrediu e cuspiu em pessoas que deram o azar de estar com a camisa da cor errada.

Vou me lembrar dos interesses dos poderosos sendo defendidos por quem não vai nem sentir o cheiro dos milhões, de acharem normal os votos sendo dedicados à família como se dissessem “é por mim mesmo que estou fazendo isso”, mas tudo bem, todos os pecados serão perdoados, desde que não sejam daquela sigla que é a encarnação de todo mal. Vou me lembrar das discussões semânticas e “veja bem não é bem assim” enquanto o tapete era puxado debaixo de seus pés.

Vou me lembrar de que todo o barulho e toda a confusão para que se mudasse tudo foi, no fundo, movimento para que continuasse tudo igual.

Vou me lembrar porque a memória deles é fraca, mas meu nome é História. Hoje me negam, amanhã me repito. Já aconteceu antes. E, do jeito que continuam a me amassar, me jogar para debaixo do tapete, a se recusar a olhar na minha cara, vou acontecer de novo. E nem adianta me dar tchau.

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Uma conversa com Susan Sontag

Um dos últimos livros que li foi Susan Sontag: entrevista completa para a revista Rolling Stone, feita pelo jornalista Jonathan Cott e pela primeira vez publicada na íntegra, traduzida no Brasil pela Autêntica.

Ler não-ficção de vez em quando é bom pra descansar o cérebro (acho que foi a Olívia que me recomendou isso), e esse livro com a entrevista da Susan Sontag era o que eu estava mesmo precisando ler.

Se você não conhece, a Susan é escritora, cineasta, crítica e feminista, que faleceu aos 71 anos em 2004. Essa entrevista foi feita na década de 70, mas me parece que uma visão afiada vinda de um conhecimento profundo do ser humano nunca fica ultrapassada.

Foi um livro que eu sublinhei quase inteiro, sério. Mas separei aqui dois trechinhos para você que me fizeram pensar muito:

“Eu, como pessoa, gosto de me sentir responsável. Sempre que minha vida pessoal está uma bagunça, como ter me envolvido com a pessoa errada, ou estar de mãos atadas de alguma maneira – o tipo de coisa que acontece com todo mundo –, eu sempre prefiro assumir a responsabilidade por mim mesma do que dizer que a culpa é dos outros. Odeio me ver como vítima. Não gosto de culpar os outros porque é muito mais fácil mudar nós mesmos do que mudar os outros.” (p. 26)

“A neutralidade transcendente não é uma atitude do tipo ‘não vou tomar partido’, é compaixão. É onde vemos mais do que apenas o que separa lados ou pessoas.” (p. 113)

Ela não vai ter como saber, mas Susan se tornou uma referência que encaixou algumas boas pecinhas nessa Aline que estou construindo.


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Águas-Vivas

Já tem leitor com águas-vivas dentro do kindle, já tem leitor recebendo águas-vivas em casa e é muito doida essa sensação de que agora está feito, meu livro está sendo lido ♥︎

o queridíssimo Isaque é um dos que está lendo
e mostrou no Instagram!

As águas-vivas não sabem de si está disponível (tanto o ebook quanto o físico) na loja da Amazon, na loja Kobo, no site da editora e nas livrarias. Em breve você também poderá comprar direto de mim, com dedicatória especial ;)

Ah, preparei uma playlist no Spotify com a trilha sonora do livro, as músicas que aparecem na história e as que me acompanharam no fone de ouvido enquanto eu escrevia. Tem Bowie, Florence, Elza Soares, Raul Seixas e até música d’A Pequena Sereia. 


Para saber mais sobre o livro:

:: Em “Mergulhando em busca das Águas-Vivas” conto sobre o processo da escrita, o que me motivou a escrever uma história nas profundezas, inspirações e pesquisa.

:: Em “O som em As águas-vivas não sabem de si falo sobre como o som é parte importante da história, compartilho outras curiosidades e falo um pouco sobre as músicas escolhidas para a playlist.



“And it's peaceful in the deep
Cathedral where you cannot breathe
No need to pray, no need to speak
Now I am under all” 


– Never let me go, Florence

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A situação está bem puxada do lado de fora, essa foi uma semana que me deixou atordoada, mas ficar sem palavras é algo que não posso exatamente me dar ao luxo. Às vezes, nos agarramos às palavras quando é a única coisa que nos resta.

Obrigada pela companhia e volto na próxima edição (neste mesmo batcanal) com mais histórias, textão e sempre com as referências que me inspiram e que eu quero espalhar pelos quatro cantos dessa internet tal qual folhas de cerejeira em mangá shoujo.

Beijos da época,


Para ver o arquivo com as edições passadas, clique aqui.

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