Copy
Porque algumas coisas não tem o que explicar, apenas sentir.

Porquês


Tomei a liberdade de responder, neste e-mail, o e-mail de um amigo. Espero que não se importe, Aline. Mas se ele posta sobre o e-mail em um blog, eu certamente posso falar sobre isso aqui, certo? Até porque, ao responde-lo, estou respondendo também a mim mesma.

Há três dias, chegou no meu e-mail uma história. Uma ficção curtinha. Li, gostei, respondi ao autor (esse meu amigo) com as minhas impressões. Perguntei o que ele iria fazer com o conto. Ele não sabia.

Publica na Amazon, eu entusiasta de e-books e histórias curtinhas, sugeri. Mas ninguém compra, ele rebateu. Aí, nesse ritmo maroto de troca de e-mails de 140 caracteres, lancei: se ninguém compra livro, por que a gente escreve?

Perguntei sério. Por que eu não sei.

Ele, que também não sabia, continuou o assunto no blog:

Por que as coisas tem causas? Por que a gente escreve, pra quem a gente lê? Sem dúvidas, a dúvida é um fato.

Eu já tinha me questionado: por que escrevo se eu poderia simplesmente não escrever? Parece uma coisa meio tonta se meter com algo complicado, que dá trabalho, para no final ter algo que não sabe se publica já que não teria alguém interessado em ler (e fazer as pessoas se interessarem em ler, põe mais trabalho aí).

Até cheguei a escrever sobre o que me motiva a escrever em Os demônios da minha escrita. E não chego a uma resposta exatamente racional sobre por que a gente escreve, pois  escrever tem um quê de obsessão, de impossibilidade de lidar com as coisas, de incompatibilidade com o que é estabelecido em nosso mundo.

Então acaba sendo uma coisa meio tonta mesmo, que a gente faz porque. Intransitivamente.

Mas veja que a questão do meu amigo vai um pouco além da escrita. Já não é somente sobre o porquê de escrever se ninguém vai ler ou se é tão mais fácil não escrever.

(o que pega nos porquês sempre vai além da questão de ele vir junto, separado, com ou sem acento)

Mas: por que fazemos o que fazemos? Por que o que fazemos deve ter um porquê? Uma justificativa? Uma causa?

Por que precisamos atrelar o que fazemos a uma razão, um motivo? Escrever para que alguém leia. Enviar uma newsletter toda semana para ter alguma presença. Ler um livro para poder resenhar. Assistir a um programa para ter assunto.

Porque a gente tenta encontrar um sentido para as coisas que fazemos, ainda que inconscientes disso. E aí vamos medindo e julgando as coisas que fazemos pela utilidade delas. Coisas que servem para algo. Coisas que servem a um propósito. Que têm uma finalidade.


Para vigias em ronda: café. Para limpar a lousa: apagador. Para o beijo da moça: paladar. Para uma voz muito rouca: hortelã.

Mas nem todas as coisas precisam de uma razão de ser, como o amigo que escreve um conto e o conto não precisa ser publicado na Amazon ou em um blog para que faça sentido te-lo escrito.

Na última edição da newsletter da Olivia, ela falou sobre essa mania das pessoas de achar que um dia perdido é uma vida perdida, de achar que todos os dias precisam ser ocupados com coisas úteis:

mas não é nada criminoso “perder” um ano em dúvidas, em dívidas, em um relacionamento que não deu certo. não seria, se a gente se esforçasse por gastar mais tempo vivendo o momento como ele se apresenta do que querendo agregar mil coisas ao momento.

E quantas coisas a gente não deixa de fazer por que não são úteis? Ou que a gente poderia fazer bem mais livres se não precisasse ficar agregando mil coisas para que fizesse mais sentido?

As coisas podem ser muito significativas ainda que não tenham uma razão de ser.

Tem um texto que eu gosto do Alex (outro) que fala o seguinte:

Se você equaciona "ser útil = ser bom", eu diria que você é que tem uma visão muito utilitarista da vida, julgando tudo pela sua utilidade.

O que é útil é plantar batatas e coletar lixo. Se todos os plantadores de batata e todos os coletores de lixo sumirem de repente, a sociedade entraria em colapso. Se sumirem os poetas e escultores, demoraríamos até mesmo para perceber.

A literatura (ou a Arte) é inútil e, por isso, é importante e transcendental. Os coelhos e as formigas só executam o que é útil. O que nos faz humanos é nossa capacidade de nos dedicar ao inútil.

Nem as coisas que eu faço nem eu mesma precisamos ser úteis. Tentar atrelar à minha existência a alguma causa, a um porquê, é também me limitar. Porque em algum momento eu vou tentar me justificar como pessoa para não sentir que estou sobrando, que sou um desperdício, que não sou útil

E posso me pegar inadvertidamente fazendo mil coisas, às vezes fazendo até o que não gosto ou o que não quero para poder dizer “ei, eu presto pra alguma coisa sim”. Mas de onde a gente tira isso de que a gente precisa prestar?

As coisas não precisam existir para um propósito.

Conversando com outro amigo, ele me contou sobre uma palestra que tinha assistido sobre buscar objetivos na vida. Que geralmente temos um objetivo que pode ser, digamos, fincar uma bandeira no topo de determinada montanha, e passamos as nossas vidas nos empenhando na escalada. Mas, ao chegar ao topo, não teríamos mais o que fazer. 

A palestra falava como as novas gerações estão cumprindo seus objetivos cada vez mais rápido, o que causa crises e deixa as pessoas desnorteadas cada vez mais cedo. Então, a proposta da palestra que parece ter motivado esse meu amigo era que se buscasse sempre novos objetivos. A cada desafio cumprido, encontrar um ainda maior para superar. Uma montanha atrás da outra, em vez de parar na primeira montanha onde se conseguiu fincar a bandeira.

E eu achei isso meio... neurótico? Esse eterno perseguir objetivos para não ficar parado, como se fosse o horror não ter uma montanha para escalar e apenas ficar deitado debaixo duma árvore lendo um livro ou cheirar barriga de gatinho (recomendo ambos).

Acho que é isso que está deixando as pessoas mais angustiadas cada vez mais cedo: essa urgência de fazer algo útil, de ter grandes feitos na carreira, de cumprir objetivos; e não cumpri-los rápido demais.

Talvez por isso a cara de QUÊ? que as pessoas fazem quando vão ler o texto que tatuei – que não é uma frase simples e ainda tem o bônus de estar tatuado na minha coxa, o que faz as pessoas parecerem um tanto aflitas por passarem tanto tempo olhando para as minhas pernas enquanto tentam entender o que está escrito.

O texto é a introdução do segundo livro da série O Guia do Mochileiro das Galáxias, do Douglas Noël Adams e diz o seguinte:

Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável. Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.

(aí a cara de quê)

Imaginar que a gente pode estar vivendo numa versão mais estranha e inexplicável de algo que já era inicialmente confuso é engraçado demais na minha cabeça, embora nem todo mundo consiga entender dessa forma.

Além disso, esse trecho resume bem toda essa questão sobre a utilidade das coisas, e buscar sentido, e as coisas terem que ter causas.

(e retornar a esse texto nesse ponto da reflexão me faz acreditar que foi uma escolha acertada tatuá-lo, além de ter deixado meu cruzar de pernas com mais conteúdo)

Nem o Universo existe por uma razão. Ele simplesmente é. Um dia, no futuro, não vai ser mais. Igual a todos nós, por mais que a gente tenha dificuldades de lidar com isso. Servir para algo não é uma condição para qualquer coisa existir. 

Taí o Universo sendo infinito sem precisar servir pra nada, a não ser de exemplo numa newsletter que será enviado para mil e duzentas pessoas num planeta ridiculamente pequeno perdido no espaço, em uma manhã de sábado perdida na imensidão de bilhões de anos.

Diante disso, importa o porquê de escrever um conto se ninguém vai ler? E eu só penso numa resposta:

¯\_(ツ)_/¯

Por que a Lu?



Esta semana eu tive a honra & nervosismo de conhecer a Luciana Genro ao participar de um debate da candidata com as feministas aqui em São Paulo.

Quem foi e quem assistiu via streaming, sabe que declarei meu voto a ela (também fizeram a Clara Averbuck, a Karina Buhr, a Marina Lima, a Maíra Kubik e a Márcia Tiburi, só mólier firmeza).



Então resolvi abrir aqui as razões do meu voto, especialmente porque muita gente se simpatiza com ela mas não vê sentido em votar em quem parece não ter chances de ganhar e prefere dar um voto útil no candidato menos pior (olhaí a praga da utilidade de que falamos acima).

Mas eleição não é aposta em corrida de cavalo para votar no que tem mais chances, e sim para votar em quem se acredita.

Então voto na Lu (sou íntima) porque quero votar em alguém com propostas com as quais me identifico e que acredito que me representam. Vou deixar para votar no menos pior no segundo turno e ei, é pra isso mesmo que serve eleição em dois turnos.

Voto porque ela é a favor da legalização do aborto e essa é uma pauta urgentíssima, porque mulheres vão continuar morrendo enquanto o Estado não possibilitar que o aborto seja legal e seguro.

Porque ela é de um partido que não aceita “doações” de bancos e grandes empresas, o que torna menos provável que sejam os interesses dos poderosos que assumam a presidência.

Porque ela defende a taxação de grandes fortunas e também acho urgente medidas que rompam com essa desigualdade desgraçada que existe no nosso país, revertendo a lógica que faz as pessoas serem tão exploradas enquanto os ricos podem ficar ainda mais ricos numa boa (e aí vale lembrar o quanto o poder econômico se concentra na mão de uma elite branca e masculina, o que reforça mais a desigualdade racial e de gênero).

Porque essa proposta faz dela uma Robin Hood.

Porque ela defende o estado laico, que é justamente o mecanismo que garante o direito à liberdade religiosa a pessoas de todas as religiões e a pessoas que não têm religião, em igual medida.

Porque ela defende a legalização e regularização da maconha, no mesmo patamar que são tratados o álcool e o cigarro, como medida para combater o tráfico e a violência.

Porque ela defende o casamento civil igualitário e ninguém pode dizer que “governa para todos os brasileiros” enquanto vira as costas para as demandas da população LGBT.

Porque ela tem coragem de dizer o que acredita e fala bem, enquanto os candidatos “principais" são escorregadios, evitam se posicionar e não podem defender algumas coisas porque têm o rabo preso.

Porque ela mandou o Gentilli estudar.

Porque ela jogou verdades inconvenientes na cara do Aercio em um debate e eu quase gozei.

Porque até dá pra gostar da rainha Dilma Lannister e torcer por ela contra a ameaça da Marina Melisandre que periga tomar o trono, mas só Luciana Genro é Khaleesi, filha da tormenta, quebradora de correntes e mãe dos dragões Socialismo, Feminismo e Laicidade, capaz de trazer liberdade a esse reino. O problema é só que ela não tem dinheiro para comprar navios para leva-la ao topo das pesquisas, mas espera só até o exército dela ficar maior!

Coisas que não fazem sentido



Esse vídeo de pessoas dançando com collants coloridos em um programa infantil alemão.

Esse jeito de andar.

O filme Ninfomaníaca, do Lars Von Trier.

Dizerem que sou “jornalista”.


Japonesas rebolando com música clássica em vários cenários aleatórios.

Um processo donde o advogado informa que
réu consegue se transformar em toco ou mesmo se esconder de trás de um cabo de enxada (?)

"ter como proposta de governo 'acabar com a violência' é tão vago quanto uma mensagem erótica dizendo '
eu vou comer você. de alguma maneira. bem boa’.”

A vida.

As pessoas.

Inventarem mais uma rede social.

As ilustrações de
Ruth Munro.



Sorteio daora



A Sybylla do Momentum Saga e a Camila do Goticity estão fazendo um sorteio da pontinha da orelha de maravilhoso. 

A Camila faz uns cadernos personalizados à mão e elas vão sortear um desses cadernos com o Universo na capa (pelo menos uma parte que coube) + uma edição impressa da coletânea Universo Desconstruído + a versão impressa pocket d’O Sonho da Sultana. 

É um combo de maravilhosidades.

Então fica a dicona: no blog da Sybylla você confere as regras para participar e o sorteio é dia 10 de outubro.
Corre lá!

Espero que você ganhe :)
 


♥︎
♥︎
Quando criei o nome desta newsletter, há umas trinta e três semanas, eu já estava comprometida com a inutilidade deste meio.

Um e-mail para falar bobagens. Não precisava servir para nada. Como esta edição não serviu.

E veja como esta inutilidade pode ser libertadora: todas as semanas eu me disponho a escrever e compartilhar besteiras, algumas das quais eu até me orgulho. Coisas que até publiquei no meu blog depois, por eu ter gostado e achado que mereciam ser mais perenes.

Não precisar escrever coisas sérias ou que façam sentido tem transformado a escrita numa brincadeira. Brincar é inútil, e é por isso que a gente não pode mais fazer depois que cresce. Porque temos que nos dedicar ao que tem utilidade, a produzir, a trabalhar.

E nossa, quem guenta?

Então não posso reclamar de poder brincar de escrever de vez em quando – e de saber que você vai estar me esperando no playground.

Beijos inúteis,

Aline.

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
Email Marketing Powered by Mailchimp