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Chatice? Aqui tem também.


Nas minhas pesquisas e leituras habituais, comecei a perceber o que me irrita ou me cansa em algumas críticas, resenhas ou análises sobre filmes e livros: boa parte delas se resume ao “gostei” ou “não gostei” ou a contar a sinopse.
 
(tudo sem spoilers, claro, porque as pessoas têm pavor de spoiler, mesmo aqueles que nem são tão reveladores assim e podem acrescentar algo à análise)
 
Sinopse eu encontro na descrição do livro no site da livraria, ou na página do filme no IMDb, ou ainda em releases na imprensa. Também não me acrescenta muito saber se a pessoa gostou ou não gostou. Isso me diz mais sobre ela, suas preferências e percepção, do que sobre o trabalho analisado em si.
 
Claro que cada análise vai partir de uma percepção pessoal sobre determinada obra, porque enxergamos a realidade através das lentes do nosso momento de vida, do nosso humor, das nossas referências prévias, dos nossos gostos. Mas dá pra ir um pouquinho além do joinha pra cima ou pra baixo, vai.
 
É como uma crítica que vi a um livro da Elvira Vigna, dizendo que a leitura era cansativa. Primeiro, WTF quer dizer leitura cansativa? É uma leitura que te fez puxar uma enxada, dar duas voltas no parque, levantar 20kg? Acho que não, né?
 
Tenho implicância com essa implicância com livros que exigem um pouco mais do nosso raciocínio e da nossa atenção, que escondem significados nos detalhes, que não são desvendados num primeiro olhar, que são costurados numa linguagem um pouco mais madura e distribuída em mais camadas que a mais caprichada das lasanhas.
 
Nem toda leitura tem que ser agradável como pipoca e guaraná ou como um filme cheio de efeitos especiais que você pode se recostar na poltrona e só receber a mensagem passivamente (o que não deixa de ser bom!). Algumas leituras exigem engajamento, participação, esforço – e isso é ótimo!
 
É como escrevi aqui sobre um livro de investigação que li há algum tempo: “Isso me fez pensar em tantas outras narrativas que me conquistaram porque deixaram comigo parte do esforço de construir a história. Leituras que me deram trabalho, que me incomodaram, que me deixaram desconfortável em algum nível. Ler não é só juntar letrinhas, mas participar de algo – e se for de algo que me sacuda e balance minhas seguranças e certezas, melhor ainda.”
 
Parece que as pessoas estão mais preocupadas em aprovar ou reprovar determinado livro com base em quesitos que elas pré-definiram como “bom”, como quem tenta encaixar peças num buraco quadrado, e se ela for redonda, bem, aí não serve. 
 
Em muitos casos observo que não existe a mínima vontade de deixar que a história e a mensagem entre na gente, mexa com a nossa cabeça, mude algo lá dentro, vire nossa percepção de cabeça pra baixo; é como se a gente não tivesse que ser flexível pra receber aquela mensagem, mas a mensagem é que precisasse ser flexível para caber no nosso molde imutável de concreto. Porque certo deve estar nosso molde, né. 
 
Mas a ficção não tem que ser o que a gente espera dela.
 
Isso também tem a ver com a necessidade de expor defeitos que não necessariamente são defeitos, só pra mostrar que fez uma “análise mais crítica”. Em algum momento, “crítica” virou sinônimo de “apontar o dedo para o que não gostei” e acho que muito se perde com isso. Principalmente minha paciência.
 
É comum, por exemplo, ver em alguma resenha “muito bom o filme, mas não precisava de tal cena” ou “a cena foi muito longa” ou “seria melhor se terminasse assim ou assado”. Aí esses dias eu fiquei pensando. Olha o tanto de gente necessária pra fazer um filme. Alguém teve a ideia, alguém escreveu, outra pessoa topou investir dinheiro nisso, outra dirigiu, outra atuou, outra produziu, outra editou, etc, etc. E isso num processo que levou MESES. Ou anos.
 
Aí a tal cena que um espectador achou desnecessária foi pensada por um monte de gente, custou dinheiro pra ser feita, foi fruto de uma decisão, deu trabalho. Será que está ali por algum motivo?? Hmm, será?
 
Do jeito que algumas críticas são feitas, parece que fazer cinema ou escrever um livro é algo que se faz tão impensadamente quanto soltar um peido.
 
“Ah, mas não pode dizer que gostou ou não gostou de algo?” Pode, pode muito. Inclusive em conversas acho super válido; mas se está num texto que pretende analisar a obra, e se a crítica se resume a isso, não vai ser o tipo de coisa que vou querer ler. Troco de canal.
 
Naturalmente, toda essa crítica às críticas diz mais sobre mim, minhas preferências e o tipo de análise que eu vou procurar, do que sobre as críticas em si. Essas críticas, mesmo as mais rasas, têm todo o direito de existir e, mais que isso, têm uma importante função: sem elas, que parâmetro eu teria para medir as análises mais profundas, que vão além do óbvio, feitas por alguém que se comprometeu a estudar determinada obra e se preocupou em extrair algum significado daquilo?
 
Essas críticas também me ajudam a tomar consciência do tipo de coisa que NÃO quero fazer quando eu mesma estiver escrevendo uma resenha, crítica, análise. Meu papel quando estou analisando um livro, um filme, uma série, é tentar desenvolver o que aquele trabalho me fez pensar mais do que dizer se me fez gostar ou não dele; é tentar interpretar e extrair os significados mais do que apontar o que eu considero que “poderia ser de outro jeito” pra mostrar que sei mais que o autor.
 
(porque hoje em dia parece que escrever significa apenas mostrar que a pessoa sabe mais que os outros, e eis aí outra coisa que me irrita)
 
E aí, fazendo um contraponto a mim mesma, essas críticas devem existir porque, se nem toda leitura precisa ser um passeio no parque, algo fácil de engolir, nem toda crítica precisa ser uma análise profissional e profunda. Não é preciso se dispor a estudar e a ver todos os ângulos de uma obra para ter permissão para falar sobre ela.
 
É possível escrever sobre um livro ou um filme como quem está apenas conversando despretensiosamente sobre ele, com a diferença que hoje a conversa também está na internet, em forma de textos, vídeos, podcasts. Não é menos “crítica” por isso. Na verdade, isso redefine o que é “crítica”, tornando-a mais ampla e diversa, com diferentes níveis de profundidades, para todos os gostos.
 
Porque a gente consegue escolher melhor o que nos satisfaz quando tem mais opções de escolha. Mas que eu tenho que suar um pouco mais pra encontrar uma análise que eu goste, ah, isso eu tenho.
 
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Sábado passado, enquanto você lia minha edição sobre o corvo, eu estava num painel na CCXP (Comic Con Experience) pra falar sobre diversidade na cultura pop. Participaram também Isaque Criscuolo, da coluna Gay Nerd do Omelete, os youtubers Luba e Frederico Devito, o quadrinista Talles Rodrigues que faz a HQ Mayara & Anabelle, e uma das apresentadoras do podcast feminista Pop Don’t Preach, a Marina Burini.
 
Achei que foi incrível pelo nível do debate que conseguimos alcançar, para além de comentários sobre filmes e séries (abordamos até lugar de fala e protagonismo de mulheres no feminismo!). O nível das perguntas também foi excelente, o auditório estava lotado e foi ótima a recepção para os temas.


foto: CCXP


foto: CCXP


foto: Marcos Felipe


Com Isaque do Omelete, Teca, Nana e Marina, do Pop Don't Preach. Foto: Marcos Felipe
 
Não é só um debate que encerra a questão, ou só um grupo de pessoas falando em uma manhã que representa o que está sendo esse movimento por mais diversidade em todos os meios. Cada um desses debates, seja em eventos, blogs, podcasts, vídeos, salas de aula, conversas, é mais um tijolinho nesse mundo novo que estamos tentando construir.
 
Cada um desses momentos é importante. Especialmente porque, no mesmo evento em que se celebrava a força de diversas heroínas, um repórter de um programa de TV decadente simplesmente LAMBEU uma cosplayer de Estelar, em um ato de extremo desrespeito, mau gosto e machismo. A organização manifestou repúdio ao acontecido e baniu o tal programa de próximos eventos.
 
Isso é um sinal de que é preciso falar mais sobre isso, colocar o assunto de diversidade cada vez mais em pauta e em evidência. Para que se crie e se fortaleça uma cultura de respeito com a nossa presença. Porque ao contrário do que chamadas na TV sugerem ao dizer que “mulheres invadem mundo nerd”, não estamos invadindo espaço nenhum; esse espaço também é nosso.
 
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EspnW, um site de notícias voltadas para o esporte feminino, criou uma galeria para homenagear 25 mulheres de impacto no esporte, entre atletas e influenciadoras (comentaristas, técnicas, árbitras, líderes, etc).
 
E o mais legal e incrível é que a EspnW se juntou a Marvel para fazer essa homenagem, chamando diversos ilustradores para retratar essas mulheres como verdadeiras heroínas!
 
Eu achei tão foda essa ilustração juntando atletas e heroínas da Marvel (e tem a She-Hulk e Viúva Negra, minhas favoritas!), olha só:
 
 
Dá uma olhada na galeria, os desenhos são lindos, tipo esses da lutadora Ronda Rousey e da tenista Serena Williams. Poderosíssimas:
 
 
Na página inicial do site tem tipo um mini-doc da Ronda, e já citei em edições passadas o quanto essa mulher me inspira, pela forma como ela leva a sério o seu trabalho. Aí chega um momento do vídeo em que ela fala um negócio com o qual me identifico completamente:
 
“Eu não quero que outras garotas tenham as mesmas ambições que eu, quero apenas que saibam que tudo bem ter uma ambição; também não quero que elas queiram fazer as coisas do jeito que eu faço, quero que elas vejam que podem fazer o que estiver na cabeça delas.”
 
Por isso faz todo o sentido retratar atletas como super-heroínas: atletas, muito mais do que o seu trabalho em si, também têm a responsabilidade de inspirar.

Uma responsabilidade à altura de seus grandes poderes.
 
•••
 
Imagine que você chegue numa entrevista de emprego e ofereçam a seguinte vaga pra você:
 
É um trabalho que você pode fazer de casa, sem chefe te cobrando horário. Mas o horário de trabalho é todos os dias, inclusive eventualmente aos finais de semana e feriados. A carga de trabalho diária ultrapassa facilmente as oito horas.
 
Não tem banco de horas, nem hora extra remunerada. Não tem férias, décimo terceiro, vale alimentação ou plano de saúde.
 
Em compensação, não tem chefe – já falei essa parte? Consequentemente, não tem ninguém para te orientar, te dar diretrizes ou te ensinar como fazer o seu trabalho. Você precisa se virar e descobrir você mesmo.
 
Entre os principais benefícios estão: fazer algo que muita gente gostaria de estar fazendo, ter visibilidade e ser vista como uma pessoa corajosa.
 
A vaga, é claro, possui alguns requisitos. É preciso escrever muito bem. Gostar de fazer pesquisa. Ter excelente bagagem cultural. Ser extremamente criativo e estar sempre se renovando. Ter domínio de vários assuntos. Entender de marketing e redes sociais. Saber o básico de edição de imagens, vídeo e áudio. Ter senso estético e critério para curadoria de temas e imagens. Ter noções básicas de plataformas de publicação, desde wordpress até kindle direct publishing. Ter algum conhecimento sobre mercado editorial. Ter disposição e disponibilidade para eventos e entrevistas. Ter um bom networking. Todo o tipo de conhecimento que você precisou de muito tempo e investimento de recursos para adquirir – e nenhuma garantia que terá algum retorno.
 
Também é preciso ter seus próprios equipamentos e materiais de trabalho, porque não serão fornecidos pra você. Não será reembolsado nenhum valor referente à manutenção de equipamentos, compra de softwares e livros necessários para a execução do trabalho; transporte e alimentação realizados em função de suas atribuições; ou ainda custos com internet, domínio, hospedagem, ou até mesmo água e energia elétrica, que você irá precisar para poder trabalhar.
 
Nem precisa mandar sua pretensão salarial, porque essa vaga não tem salário fixo. Tanto o valor quanto a frequência do seu pagamento vão depender do quanto você conseguir em doações. Ou em propostas para trabalhos e eventos que queiram te pagar, se você tiver alguma sorte de conseguir uma ou duas propostas desse tipo em um ano entre dezenas de pedidos e convites para você fazer coisas de graça.
 
Com essas fontes de renda completamente flutuantes, considere que a única certeza que você terá é a de que, em média, sua renda mensal dificilmente vai passar dos três dígitos.
 
Não é uma vaga nada atraente e muitos diriam que seria loucura aceitar algo assim. Mas eu aceitei essa vaga. Escolhi conscientemente fazer dessa loucura o meu trabalho. Porque acredito no que eu estou fazendo. Porque quero fazer mais.
 

é preciso bater nessa tecla
 
Mas eu não sei por quanto tempo vou conseguir fazer isso. É muito trabalho pra pouco retorno, é fazer do trabalho minha vida, mas perceber que meu trabalho sozinho não me dá o suficiente para que eu consiga viver.
 
Se não fosse a generosidade dos meus leitores que fazem contribuições mensais, eu já teria desistido disso há tempos.
 
Então se os meus textos são de alguma forma importantes pra você, se você gosta de ler o que eu escrevo e quer que eu continue a fazer isso, peço para que considere fazer uma assinatura de R$ 10 por mês.
 
10 reais é mais barato que a maioria das revistas que você encontra nas bancas – e elas ainda estão cheias de propaganda dentro. 10 reais não te atrapalha tanto a pagar as suas contas, mas faz uma enorme diferença para eu conseguir pagar as minhas.
 
Aproveita o 13º pra contribuir com uma artista que não ganha 13º :)
 
E eu te agradeço com todo meu coração. 

Nas edições passadas

 

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O @diogobatalha compartilhou no Twitter e eu lembrei porque tenho tanta antipatia pela uva.
 
Porque a uva se impõe.
 
A uva não tem respeito nenhum pelas pessoas. Ou está invadindo pratos salgados em forma de uva passa, ou se infiltrando no brigadeiro.
 
A uva não quer saber do que você quer: ela se coloca no meio, ácida no doce, doce no salgado, agarrando-se à sua língua contra seu consentimento.
 
A uva se mete onde não é chamada e precisamos dar um basta nisso.

A gente se vê na próxima edição (sem uva no meio, garanto).
 
Beijos cansativos,
 
Aline. 
 
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