Copy
Se você lembrou da abertura de Família Dinossauro, me abraça.

Homenagem, sonhos e divindades felinas


Oi, <<Primeiro Nome>>. Como vão as coisas? Por aqui, tudo caminhando; ainda que às vezes eu sinta que não estou avançando ou que estou avançando mais devagar do que eu gostaria.

Imagine que é um jogo de tabuleiro. A minha semana foi como uma rodada sem jogar. Mas não porque eu esteja estagnada, mas porque é a hora de parar, refletir, se preparar para a próxima jogada. Claro que fico aflita não podendo mover minha peça, mas tem coisas que não tem jeito: tem que esperar.

E, afinal, quero ter certeza que vou tirar um bom número nos dados.
 

Sobre homenagem e humanidade



Na semana passada, Cláudia Silva Ferreira foi brutalmente assassinada pela PM no Rio de Janeiro. Você deve ter acompanhado a história. 

Você deve ter visto como a presidente, que na ocasião de um policial ter sido agredido em manifestações, prestou todo o apoio e fez declarações inflamadas pela imediata identificação e punição dos responsáveis, e que nesse caso disse simplesmente que “a morte de Cláudia chocou o país”, como se tivesse sido assim, uma fatalidade causada por um fenômeno da natureza, e não um assassinato como tantos outros, legitimados pelo Estado, na forma de violência policial, que dizimam a população negra. 

Você deve ter acompanhado a cobertura da mídia, que tentou minimizar a violência (“ela já estava morta quando seu corpo foi arrastado pela viatura”) ou apagar a humanidade da vítima, chamando Cláudia apenas de “arrastada” ou “mulher arrastada” nas manchetes. 

Você deve ter visto que os PMs responsáveis, ou irresponsáveis, como seria mais apropriado dizer, foram liberados da prisão. Você deve ter visto também que esses policiais têm dezenas de homícidios nas costas.

No meio de tanta violência, descaso e barbaridade, a indignação se transformou no desejo de homenagear Cláudia, de resgatar a humanidade que não viram e continuam não vendo nela.

Fui convidada pelo site Think Olga para fazer parte da homenagem coletiva 100 vezes Cláudia, um projeto que buscou retratar de forma carinhosa a memória de Cláudia Silva Ferreira. Em 24 horas de projeto, o site recebeu 100 ilustrações cheias de sensibilidade.

Fiquei bastante surpresa ao ver a repercussão que teve a minha ilustração, sendo compartilhada por pessoas que muito admiro, como o Emicida e a Ellen Oléria. É uma emoção muito grande ver que algo que fiz para representar o meu sentimento pudesse representar também o sentimento de tanta gente, levando essa homenagem tão longe. É isso que comove.

À autora do Think Olga e criadora do projeto 100 vezes Cláudia, Juliana de Faria, fica o agradecimento pela sensibilidade em um momento tão lamentável e tão difícil. 

Você pode ver mais sobre o projeto aqui.
 

Sonhei que você me lia


Eu sonho muito. Sonhos intensos, vivos, com começo, meio e fim, muito bem construídos e cheios de maluquices que acordada não sou capaz de inventar. 

Dias atrás sonhei que eu era um cavalo de guerra. Num combate que estava acontecendo em Pernambuco. Lembro de como eu estava preocupada em não terem me deixado descansar e não terem me dado feno ainda, porque era sinal de que a guerra não tinha acabado. Eu passava por uma cidadela arrasada por um ataque e via crianças mortas estiradas no caminho. Era terrível. E eu só conseguia pensar no maldito feno.

Sim, tem esses sonhos sem sentido que me fazem acordar não entendendo nada. Mas algumas vezes, acordo com soluções incríveis na cabeça, como na vez em que estava travada em um trecho do meu livro e simplesmente sonhei com o diálogo que resolvia a cena. A ideia já estava lá, mas às vezes forçamos tanto que não conseguimos fazê-la vir à superfície. Ainda mais com tantos estímulos invadindo nossa cabeça ao mesmo tempo quando estamos acordados – especialmente na frente de um computador.

Em Hipersonia Crônica, eu me permiti escrever sobre sonhos – não só porque a história é sobre os sonhos de um cara perturbado pelo trabalho, mas porque descrevo cenas que realmente já sonhei. Claro que os sonhos separados não faziam o menor sentido – que é o que mais gosto neles – mas fui costurando, dando uma unidade para os fragmentos e os transformando na estrutura da história. Sim, Hipersonia Crônica é um sonho, ao mesmo tempo em que também é baseado em sentimentos reais.



Lancei a 2ª edição semana passada e o e-book já está no Top 50 da Kobo Store! Até me belisquei para ver se estava mesmo acordada.

Então se você comprou, baixou e leu: muito obrigada! Espero que tenha gostado. Você também pode me mandar a sua opinião por e-mail, mesmo que não tenha curtido. Aliás, especialmente se não tiver gostado de alguma coisa. Vou ficar muito feliz se você achar que vale a pena compartilhar suas impressões comigo para que eu possa evoluir.

Se você ainda não leu, dá tempo. Clique aqui e bons sonhos.
 

Pra ficar de olho

 
Eu e Clara Averbuck vamos estrear um blog na Carta Capital, o Escritório Feminista. Massa né? Muito em breve. Aguarde. 
 

Descobri que meu gato é deus


Sério. Juro pelo que há de mais sagrado.
Fora de Lugar é uma história seriada exclusiva para os assinantes do Bobagens Imperdíveis. Sinta-se à vontade para mandar críticas e sugestões - ou ideias! - para a continuidade da história. 

Nos episódios anteriores: <<Primeiro Nome>> é uma criança de 10 anos cujos pais simplesmente sumiram. Dois homenzinhos de uma estranha empresa de limpeza se encarregaram de apagar os vestígios de que os dois já tivessem sido um casal, mas a coisa mais importante deixaram passar. <<Primeiro Nome>> conseguiu fugir e agora se refugia na casa de duas estranhas, uma delas recém-saída da cadeia.


***

Antes de Berta sair para trabalhar, as duas conversaram. Berta garantiu a Nice que <<Primeiro Nome>> não daria trabalho, se era seu receio ficar sozinha com a criança.

– Não é isso – Nice explicou – O que me preocupa é outra coisa. Você acreditou mesmo nessa história que <<Primeiro Nome>> contou?

– Talvez você devesse escutar o resto da história, Nicinha. Eu também duvidei, mas as coisas que aconteceram depois que conheci <<Primeiro Nome>> não me deixaram dúvidas. Eu só não queria te preocupar agora, sabe. Queria que você curtisse um pouco a liberdade. Visse as pessoas que não vê há tempos. Sei lá, relaxa. Desses problemas, deixa que eu cuido.

Mais uma coisa que tinha mudado drasticamente. Essa preocupação de Berta em não envolver Nice em roubadas não existia antes dela ser presa. Aliás, foi exatamente por isso que Nice acabou enquadrada. Os comprimidos que ela contrabandeou e pretendia vender na capital só entraram em sua bolsa porque ela precisava arrumar um jeito de pagar uma dívida de Berta com Calixto. O mínimo que Berta podia fazer depois de Nice pagar alguns anos na cadeia ao tentar consertar suas merdas era parar de se envolver em confusão. Não era pedir demais, Nice pensava.

– Berta, você não entende. A gente precisa se livrar dessa criança. É bem provável que esteja mentindo sobre toda essa história dos pais terem desaparecido e sobre dois homenzinhos de branco estarem à sua procura. Crianças inventam, você sabe. Nesse momento, os pais devem estar loucos atrás de <<Primeiro Nome>>, que deve ter fugido por algum motivo. E se encontrarem essa criança aqui? Vamos ser acusadas de sequestro!

– Tudo o que eu quero é ajudar <<Primeiro Nome>> a encontrar seus pais. Eu estou com uma pista quente, então é bem provável que isso acabe logo. Não se preocupe, vai ficar tudo bem. Podemos conversar depois? Tô com horário marcado com um comprador e não quero me atrasar.

Berta deixou Nice com um beijo e com uma angústia ainda maior no peito, que as palavras "vai ficar tudo bem" não conseguiram apagar.

Ainda era de manhã quando Nice resolveu sentar do lado de fora de casa para fumar e ficar olhando a rua. O movimento de carros e pessoas era banal, mas esse horizonte parecia muito significativo depois de passar algum tempo privada dele.

Pelo menos até Clotilde aparecer.

Clotilde morava no final da rua e era uma senhora muito desagradável. Ser uma assídua frequentadora da igreja fez com que ela acreditasse ser uma guardiã autorizada a garantir a moralidade no bairro. Em outras palavras: a encher o saco de pessoas cujas vidas não a afetavam.

– Veja só, Miranda – ela estava acompanhada de outra senhora, as duas com os braços carregados de sacolas de feira, quando se aproximaram do portão de Nice – Não é mais seguro morar aqui com traficantes perigosas à solta.

Nice apenas ficou calada e soltou uma baforada de fumaça como resposta.

A mulher, não satisfeita, começou a desfilar os fatos do crime que a levou para a cadeia em tom alto o suficiente para os que passassem por ali também ouvissem. Começou a especular outros crimes que ela tivesse cometido na cadeia. Falou até babar sobre como ela fugiu da prisão, porque não deixariam uma criminosa sair assim tão fácil.

– Deveriam ter trancado você e jogado a chave fora, para apodrecer perto de gente igual a você, e não voltar para esse bairro de gente decente e trabalhadora! Mas o senhor há de ouvir as minhas preces e fazer você desaparecer desse lugar!

– Olha, vai ter que rezar com mais força, porque não estou nem perto de sumir daqui.

– Como ousa dirigir a palavra a mim, sua aberração?

– Minha senhora, você é que está plantada na porta da minha casa me dirigindo a palavra – Nice respirava fundo tentando manter a calma.

– Eu tenho todo o direito de estar aqui, quem tem que voltar para o inferno é você. Você e aquela sapatão. Vocês não pertencem a esse lugar, são aberrações!

– Como é? – Nice se levantou com o coração querendo pular para fora da boca, aproximando-se de Clotilde com os punhos fechados.

– Vejam, ela vai tentar me bater! A criminosa está me ameaçando, chamem a polícia! A polícia!

Nice recuou na mesma hora, um alarme disparando dentro da sua cabeça. Que velha desgraçada, era isso que ela queria.

Mas de repente o escândalo de Clotilde foi abafado por um engasgo de afogamento. Um forte jato de água foi direcionado para a cara da mulher. A senhora que a acompanhava saiu dali antes que ficasse tão ensopada quanto Clotilde, que gritava e tentava proteger os olhos da água que não parava de vir. Catou suas sacolas e começou a descer a rua, de forma a sair logo do alcance do jato de água. Do jeito que saiu xingando, ninguém diria que era uma respeitável senhora da igreja.

Nice estava tão atordoada quanto a mulher que acabara de levar um banho de água fria na porta de sua casa. Quando olhou para o lado de dentro do muro de sua casa, viu <<Primeiro Nome>> segurando a mangueira. Desligou a torneira e sorriu para Nice. Ela precisava admitir que tinha começado a gostar daquela criança.
Se você perdeu alguma edição do Bobagens Imperdíveis, é só clicar aqui! :)

E se curte receber meus e-mails, indique para alguém  - encaminhando esta mensagem ou pedindo para assinar. Vou ficar muito feliz!
♥︎
♥︎

"Cada rosto tem um curto só seu", foi o que a moça disse momentos antes de meter a tesoura.

Ela só deixou eu me olhar no espelho quando tudo estivesse terminado. Não queria dar spoilers. Talvez em sua profissão ela tenha que saber construir o suspense e lidar com expectativas tão bem quanto uma escritora.

Eu sabia que queria curto, desde antes de entrar ali, mas não sabia ao certo o que esperar. Quando terminou  e me olhei no espelho, vi outra pessoa. A sensação que o cabelo fantasma deixou na minha cabeça também me fez sentir habitando outro corpo.

Mas a estranheza foi substituída aos poucos pela sensação de que agora eu parecia mais eu.

Assim como uma boa história, é preciso cortar os excessos para deixar que ela seja o que realmente é.

E com essa pequena crônica de um cabelão que se vai me despeço de você mais uma vez,
<<Primeiro Nome>>, esperando te encontrar de novo nesta caixa de e-mail na próxima semana.

Beijos,

Aline.
Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
Email Marketing Powered by Mailchimp