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A porra do beijo é meu e eu dou pra quem quiser

Não é da minha conta



Viram um homem casado beijar uma desconhecida na rua, Aline.

O que faz com que essa frase mereça estar no topo do texto – ou na manchete de sites de notícia – não é o ato em si, mas quem o protagonizou. Pessoas casadas beijando outras por aí existem aos montes, um fenômeno bastante natural nessa sociedade que prega a monogamia enquanto se recusa a aceitar que ela não é infalível; claro que nos escandalizamos com qualquer narrativa de “traição”, como se cada affair fosse o primeiro do mundo, mas o que chamou tanta atenção para esse caso é que a pessoa casada em questão é famosa.

Não importa quem seja o homem casado, quem seja sua esposa (também famosa) e menos ainda quem seja a tal desconhecida. Não importa porque não faz diferença; troque os personagens e você terá a mesma história – consequentemente, os mesmos julgamentos e comentários.

Pausa. Corta para outra cena: mulher é “flagrada” caída no chão de bêbada. Quem nunca? O que de tão especial há nessa frase? Beber, cair, levantar, coisa tão banal. Mas não: se a bêbada em questão é famosa, merece holofotes. Merece o flagra, embora não houvesse nenhum crime pra ser flagrado (essa palavra tão policialesca).

As notícias me interessaram o suficiente para eu escrever sobre elas, então não posso dizer que as ignorei, que recusei tomar conhecimento desses fatos. Claro que é difícil fugir de notícias do tipo quando todo mundo está falando sobre isso (afinal, acabou a Copa do Mundo, as eleições, sobrou pouca coisa para se falar mal nas redes). 

Mas meu interesse é de outra ordem: entender que linha é essa que separa as pessoas que têm direito à privacidade – e a fazer “besteira" – das que não têm.

Aparentemente, pessoas famosas não têm esse direito. Me disseram que elas são pessoas públicas e que é inevitável que a gente comente a respeito delas –  disse até que elas querem isso – afinal, é o preço a se pagar pela fama. Claro, alguém faz do seu trabalho algo que precisa de público e ela necessariamente tem que pagar por isso (quase uma punição?). E aqui estaremos nós, prontos para cobrar a fatura de qualquer coisa que ela faça da própria vida que não corresponda às nossas expectativas de pessoa perfeita.

Pessoas famosas continuam sendo pessoas. Elas têm problemas, elas querem se divertir, elas não são perfeitas, elas fazem cocô, elas ficam de mau humor, elas mesmas fazem fofocas de vez em quando, elas erram.

Veja, não quero aqui acusar quem sempre se banqueteia de julgamentos nesses casos, mas sim levantar perguntas: pessoas famosas deixam de pertencer a si mesmas? A fama cobra seu preço e é isso aí, as coisas são assim, agora que arquem com as consequências? 

Eu acho doida a ideia de que, por qualquer motivo, uma pessoa deixe de pertencer a si mesma. De que os outros achem que têm direito sobre seu corpo e suas escolhas, de acharem que estão precisando desesperadamente de nossas opiniões não solicitadas sobre suas vidas.

A gente se alvoroça tanto com essas fofoquitas porque com as pessoas famosas é mais aceitável extrapolar essa ânsia de fiscalizar a vida alheia que permeia as camadas mais profundas dessa nossa maravilhosa sociedade obcecada por controle.

Fiscais de cu, fiscais de beijo alheio, fiscais de celulite, fiscais de roupas curtas, fiscais de útero, fiscais de buceta, fiscais de gordura, fiscais de depilação.

A merda disso é que algumas pessoas são mais fiscalizadas que as outras – e algumas nem precisam ser famosas pra isso. Uma amiga estava me contando que ela estava no ônibus de bouas (não tanto, já que o busão estava lotado e ela ia em pé), até que percebeu que o cobrador mirava o celular pra ela, sem o menor pudor, para tirar fotos da axila dela (porque huehue mulher com sovaco peludo que engraçado huehue). Um paparazzi que se achou no direito de invadir o direito dessa moça porque afinal, ela é mulher, seu corpo é público, não quer se adequar à norma então tem que pagar o preço, etc.

(uma estranha coincidência os argumentos que justificam a invasão de privacidade tanto em casos de famosos ou de anônimos, não?)

Inevitável associar a reação escandalizada que levou a moça bêbada a virar manchete em portal de “notícias” com a ideia de que mulher não têm direito à privacidade. Não pode beber. Aparentar se divertir horrores enquanto cai na calçada com azamiga? Não pode, não pode. Vamos expor a imagem dela como punição.

Não foi afinal o que aconteceu quando famosas cometeram a “ousadia” de tirar fotos nuas, apenas para sua intimidade? Descobertas, mereceram ter sua intimidade compartilhada para o mundo inteiro, viraram manchete, expostas sem seu consentimento. Porque são pessoas públicas, precisam pagar o preço (e de novo a mesma conversa) – mesmo que sejam anônimas, basta serem mulheres para que sejam de domínio público. Não podem escolher quando, como ou para quem expor a própria imagem. Não têm direito ao próprio corpo, tampouco à própria imagem.

Mas… pelo quê essas pessoas estão sendo punidas?

(com tanto agressor de mulher e estuprador por aí merecendo punição, vamos mesmo condenar pessoas que não cometeram nenhum crime?)

Tirar a roupa, beber, beijar, trepar: nada disso é crime.

Mas desrespeitar o consentimento de uma pessoa, isso sim, é violência (sobre isso já escrevi aqui). E é isso que acontece sempre que nossa opinião não solicitada invade a vida de uma pessoa.

A mulher do famoso “flagrado” beijando outra não me perguntou o que acho que ela deveria fazer com o marido, sabe (mal me deu a intimidade pra saber se eles tinham, afinal, um relacionamento aberto). Então é melhor shiu.


Percebo com clareza que a algumas pessoas não é permitido decidir o que fazer da própria vida, com o próprio corpo. Não lhes é permitido nem errar, porque decidiram que tinham que se adequar a um padrão de perfeição ou o mundo pararia de funcionar. Breaking news: o mundo não vai parar de funcionar se fugirmos à norma. Aliás, um mundo que exige que a gente se encaixe nessas normas nunca funcionou.

Mas as perguntas continuam: por que algumas pessoas não podem pertencer a si mesmas? Por que tanta insistência – e violência – em achar que a vida dos outros é da nossa conta? Pra quê viver a vida dos outros se cada um já tem a sua?

Ou vai ver as respostas a essas questões estejam justamente nas perguntas. Em nos perguntarmos: isso é da minha conta?

“Fulano casado beijou outra mulher” – que que eu tenho a ver com isso?
“Descobriram que fulana é lésbica” – e daí?
“Aquela atriz famosinha caiu de bêbada” – quem nunca?
“Fulana não se depila” – que que tem?
“Acho que a cara dela tá horrível depois da plástica” – quem te perguntou?
etc.

Tanta coisa pra fazer, tanta coisa melhor pra gente conversar; desnecessauro a gente fiscalizar as pessoas beijando otras boca.

Ilustração: Grégoire Guillemin

Ainda sobre beijoqueiros

 

Lembrei que tem gente que sente "nojo" de casais se beijando. Para não parecerem homofóbicas, fazem questão de ressaltar que "não importa se é hetero ou se é homo, isso é uma falta de vergonha!".

Eu queria muito pegar essa pessoa e dizer pra ela o seguinte: por mais que seja difícil perceber isso, o mundo não gira ao seu redor. Aquele casal (hetero ou homo) não está se beijando para ofender você. É possível que eles nem saibam da sua existência. Então eles não fazem por mal; estão apenas manifestando o afeto que sentem um pelo outro. E você não tem nada a ver com isso.

E se uma manifestação de afeto em público causa repulsa em você, talvez o problema não esteja no casal. Talvez o problema seja você. Just saying.

 

Amantes dos leitores




Na última edição, minha crônica sobre Brasília rendeu as mais divertidas respostas imaginando outras cidades como namoradas – ou embarcando na minha trip muito louca de enxergar na capital federal uma personalidade humana.

Tomei a liberdade de selecionar trechinhos de algumas respostas para compartilhar com você. Espia:



“Minha relação com Brasília sempre foi daquela ficante que você nem gosta tanto, mas não quer abandonar, sabe? Já a Finlândia é tímida, certinha e anti social, mas você não larga, pois te dá segurança e tem o pé gelado. :)”

Bruno Leo


"Aline, preciso te confessar uma coisa. Tive um caso com tua ex. Não era pra ser sério, a princípio. Nós sabíamos que duraria só um mês. Mas, talvez por isso mesmo, ela tenha se mostrado extremamente atraente, interessante, iluminada. Por mais que a gente soubesse que nosso caso era de data marcada, a última semana foi especialmente dolorosa. E foi nessa última semana que ela me convenceu a investir nela. Mas a gente faz planos e a vida desfaz, né? Não consegui me desvencilhar dos antigos compromissos, e ela foi se mostrando menos interessada também. Por fim, minha vida era na Amazônia mesmo. Pelo menos até agora. Ainda me despedi por algumas horas, avisei que haveria uma rápida conexão, se ela quisesse falar comigo, dividir um café. Era pra ser o ponto final. Mas sabe como ela é danada, né. Alguns dias antes de completar um mês de casada, passei uma noite com ela. E não me arrependo, confesso. Mas, como você, vi que a gente não se encaixa mesmo para um relacionamento sério. Ela será meu eterno casinho. Quem sabe um dia levo o marido pra gente se divertir a três.”

Tereza Jardim


“Vivo um relacionamento não monogâmico com SP já que todo fim de semana volto pra casa dos meus pais no interior. Acho que entendo porque alguma vezes Jacareí me recebe de um jeito tão frio e quase bruto, afinal eu deixei ela pra vir estudar, trabalhar e fazer novos amigos em SP e ainda assim todo fim de semana lá estou eu, com essa cara de pau que a deusa me deu esperando que ela me receba sempre com o mesmo sorriso e o mesmo abraço quentinho, com um pão de queijo e um cafezinho. Se São Paulo é essa mulher dura, com várias referências culturais diferentes e que as vezes bebe demais e fica com o batom manchado e meio fedida, acho que Jacareí é uma jovem senhora do interior, que foi dona de casa a vida toda, faz o melhor bolo de fubá do bairro e agora está começando a pensar que talvez seja uma boa ideia fazer uma faculdade e se modernizar um pouco. Eu fico divida entre as duas, não consigo deixar de amar nenhuma e também não consigo me imaginar passando todos os dias com apenas uma delas. Sorte a minha que acredito que relacionamentos não monogâmicos podem ser uma boa ;)”

Tamires Nagatami

 

Metade



No momento em que você receber este email, terei alcançado 25 mil palavras do desafio NaNoWriMo (falei sobre isso na edição #38) – a não ser que uma merda muito grande tenha me impedido. É metade da meta que me comprometi a alcançar: 50 mil palavras do meu romance sobre o oceano escritas até o dia 30 de novembro (por isso as newsletters mais simplinhas etc etc).

Para comemorar, lá vai um trechinho do que estou escrevendo, mas é só um trechinhozinho minúsculo para deixar na curiosidade mesmo.


"Devia haver um bom motivo para o corpo humano não ser capaz de visitar certos lugares. Onde a sensatez não servia como freio para a curiosidade de mamíferos teimosos, ao menos que o próprio corpo servisse como limite. Quando Corina foi apresentada ao projeto, deve ter pensando o mesmo que os grandes investidores chegaram a objetar, hesitantes demais em colocar grana em um negócio tão ousado se os robôs já faziam razoavelmente bem o trabalho sujo de descer tão fundo. Eles tinham medo, embora o grande risco para eles fosse colocar dinheiro no projeto; já Corina teria que colocar o próprio corpo. E pra quê, ela não perguntaria isso em voz alta, mas pensaria por dentro, se os robôs já faziam razoavelmente bem esse trabalho sujo? Que mandassem sondas com câmeras, como sempre fizeram. Que controlassem pinças robóticas por controle remoto e não inventassem maluquice. Mas não era o tipo de coisa que Corina questionaria em voz alta, sabendo ela que seu trabalho existia por um motivo. Também não a mandariam descer duzentos e tantos metros para consertar cabos e canos de transporte de petróleo no fundo do mar se pudessem mandar robôs fazerem o mesmo trabalho com os mesmos custos; e, no entanto, foi o que ela fez por anos. Um trabalho de que ela até gostava, apesar do isolamento, das rotinas, das exigências, do desgaste físico e mental, e foi afinal onde trabalhou pela primeira vez com Arraia e pela última vez em um emprego tão arriscado. Então, quando o amigo a indicou para trabalhar com ele novamente e ela foi apresentada ao projeto, Corina não precisou perguntar “pra quê” os trajes, ainda que a ideia de entrar neles lhe arrepiasse a espinha. Era engraçado ver os dois trajes vazios, de braços abertos como quem diz “não nos abandonem” e pareciam tão ridículos quanto o nome que a fabricante lhes arranjou. Quando soube do que se tratava o trabalho para o qual estava sendo contratada, imaginava que o traje seria uma espécie de roupa de astronauta. Encontrou, em vez disso, algo mais parecido com um robô. Ou uma armadura medieval. Ou, sendo mais imaginativa, a carcaça de uma cigarra. Vestir pela primeira vez aquele exoesqueleto foi um tanto claustrofóbico. Ficou incomodada, irritada e depois com medo de que não sobrevivesse ali dentro. Com um pouco de treinamento e prática, passou a ficar incomodada, irritada e com medo em níveis mais suportáveis. E no dia seguinte ela teria mais disso.”


Ilustração: Jody Hewgill

#RondaFeminista



:: Pra quem ainda não leu e pra quem acha válido compartilhar, meu FAQ Feminista saiu na Carta Capital!

::
Rafucko e Laerte numa conversa gostosa sobre preconceito, direitos humanos, feminismo, gênero e educação.

:: Srta. Bia mandando um
papo retíssimo sobre quem tenta anular a identidade de Laerte ao dizer que ela não pode ser mulher. (Aline, a identidade dos outros não é da nossa conta).

:: A
espetacularização da bunda da Kim Kardashian é só roupagem nova para velha ideia racista.

:: Uma reflexão sobre as
peladas de Porto Alegre e a trangressão do nu.

::
Como contribuir para que um dos melhores sites sobre feminismo no Brasil, o Lugar de Mulher, continue a produzir seu conteúdo de empoderamento e puro amor.

::
Cu não tem gênero; uma interessante leitura sobre como o ânus equipara homens e mulheres – além de expor o fato que o homem também possui orifícios e não é impenetrável.


Uma coleção de links daora
pra você curtir com um bom cafézim.
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Por hoje é só pessoal! (versão demo, rs)

Obrigada por mais uma semana de companhia, porque olha, que difícil é manter a periodicidade com uma história nas costas pra escrever.

Cuide-se, beije bastante e até o próximo episódio.

Beijos molhados (de chuva),

Aline.

 

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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